Como começa
a suspeita
A maioria dos diagnósticos de escoliose não começa com dor. Começa com um olhar: de um professor de educação física, de um pai que reparou num ombro mais alto, de um médico fazendo exame de rotina.
Por isso, a triagem precoce é fundamental. Em muitos países, o exame de coluna é parte obrigatória da avaliação escolar entre os 10 e 14 anos — justamente o período de maior risco para a escoliose idiopática do adolescente01.
Os sinais visíveis que devem levar à investigação:
Ombros em alturas diferentes
Um ombro visivelmente mais alto que o outro, especialmente em posição relaxada e de frente.
Quadris assimétricos
Um lado do quadril mais proeminente, fazendo a cintura parecer desnivelada.
Cintura irregular
A distância entre os braços e o tronco diferente dos dois lados ao ficar em pé.
Caimento irregular de roupas
Roupas que não assentam simétricas, especialmente blusas e camisas.
O teste de Adam
O teste de flexão anterior de Adam é o exame físico padrão de triagem para escoliose — simples, rápido e feito sem equipamento02.
Como é realizado: o paciente fica em pé, inclina o tronco para frente com joelhos estendidos e braços pendentes livremente. O examinador observa de trás, ao nível da coluna.
O que procurar: a gibosidade — uma elevação assimétrica do dorso causada pela rotação vertebral. Quando as vértebras rotacionam, as costelas desse lado se elevam, criando uma protuberância visível que não existe na coluna saudável.
Para quantificar a gibosidade, usa-se o escoliômetro — um inclinômetro simples posicionado sobre a protuberância que mede o ATR (Ângulo de Rotação do Tronco). Um ATR acima de 5–7° justifica investigação com raio-X03.
"Um ATR de 7° no escoliômetro é o limiar padrão para encaminhamento radiológico na maioria dos protocolos de triagem."
O raio-X e o
ângulo de Cobb
O diagnóstico formal de escoliose é radiológico. O exame padrão é o raio-X panorâmico em pé — frontal e lateral, de corpo inteiro, com o paciente ereto para avaliar a curvatura em carga04.
A partir do raio-X, mede-se o ângulo de Cobb — o parâmetro internacional de severidade:
Identifique as vértebras extremas
As vértebras mais inclinadas no topo e na base da curva — chamadas de vértebras limite ou terminais.
Trace linhas paralelas
Uma linha paralela ao platô superior da vértebra terminal superior e outra ao platô inferior da vértebra terminal inferior.
Meça o ângulo entre elas
O ângulo formado (ou seu suplementar, dependendo da técnica) é o ângulo de Cobb. Valores ≥10° confirmam escoliose.
Uma alternativa de menor dose de radiação é o sistema EOS — captura imagens de corpo inteiro em posição ereta com até 8× menos radiação que o raio-X convencional, permitindo análise tridimensional05.
Escala de severidade
O ângulo de Cobb classifica a escoliose em quatro faixas, cada uma com implicações clínicas diferentes06:
Sinal de Risser
Saber o Cobb não basta. É essencial saber quanto a coluna ainda vai crescer — porque é durante o crescimento que a escoliose progride mais.
O sinal de Risser estima a maturidade óssea pela ossificação da apófise ilíaca — a borda da crista do quadril visível no raio-X panorâmico. Vai de 0 a 507:
Risser 0
Esqueleto completamente imaturo. Maior risco de progressão. Pré-puberal ou início da puberdade.
Risser 1–2
Ossificação iniciada. Ainda em crescimento ativo. Colete geralmente indicado se Cobb adequado.
Risser 3–4
Crescimento desacelerando. Risco de progressão menor. Início do desmame do colete.
Risser 5
Crescimento completo. Esqueleto maduro. Risco de progressão mínimo para curvas leves e moderadas.
Quando ir além
do raio-X
O raio-X simples é suficiente para o diagnóstico e acompanhamento da maioria dos casos. Mas em situações específicas, outros exames são necessários08:
Ressonância magnética
Indicada quando há dor intensa, déficit neurológico, curvas atípicas (levocurvatura torácica, progressão rápida) ou suspeita de causa intrínseca (siringomielia, tumor).
Tomografia computadorizada
Usada no planejamento cirúrgico para avaliar a anatomia dos pedículos antes da colocação de parafusos.
Teste genético (ScoliScore™)
Adjunto clínico para estimar risco de progressão em AIS leve a moderada. Não substitui o acompanhamento radiológico.