Seção 05 · Tratamento conservador · 14 min

Observar,
exercitar, conter.

Antes de pensar em cirurgia, há um caminho robusto de tratamento baseado em evidências. Diretrizes SOSORT 2024, coletes ortopédicos e exercícios específicos — explicados sem jargão.

Uso de colete
18–23h
Por dia — SOSORT 2024
Taxa de sucesso
84%
Não-progressão (PMC3675407)
Referências
10
Fontes primárias
i.

Quando observar
e quando tratar

A conduta depende de três variáveis em conjunto: o ângulo de Cobb, a maturidade óssea (Risser) e a idade do paciente. Não existe uma regra universal.

As diretrizes SOSORT 2024 — o consenso internacional mais atualizado sobre tratamento conservador — definem as seguintes condutas gerais01:

Árvore de decisão — SOSORT 2024
< 10°
Sem diagnóstico

Assimetria postural

Não é escoliose. Orientação postural e acompanhamento se houver suspeita de progressão.

10°–24°
Observação

Monitoramento regular + exercícios

Raio-X a cada 6 meses em pacientes em crescimento. Exercícios específicos (PSSE) para estabilizar.

25°–39°
Colete

Colete ortopédico + exercícios

Colete indicado em pacientes em crescimento (Risser 0–2). 18–23 horas por dia. PSSE complementar.

40°–50°
Avaliação cirúrgica

Discussão sobre cirurgia

Avaliação individual. Colete pode ainda ser tentado em pacientes muito jovens. Decisão compartilhada.

> 50°
Cirurgia

Cirurgia frequentemente indicada

Risco de progressão na vida adulta e complicações cardiopulmonares.

ii.

Observação ativa

Para curvas leves (10°–24°) em pacientes em crescimento, a conduta padrão é a observação ativa — não é "não fazer nada". É acompanhar com frequência definida, documentar evolução e agir se houver progressão02.

Frequência típica de raio-X durante o crescimento:

A cada 4–6 meses em Risser 0–2 (maior risco de progressão).
A cada 6–12 meses em Risser 3–4.
A cada 1–2 anos após Risser 5 (crescimento completo), para curvas que ainda podem progredir em adultos.

Progressão é definida geralmente como aumento de 5° ou mais em dois exames consecutivos. Quando ocorre, indica revisão da conduta.

iii.

Coletes ortopédicos

O colete ortopédico é o tratamento conservador mais estudado e com maior evidência para conter progressão de curvas moderadas em pacientes em crescimento03.

Existem vários tipos — cada um indicado para perfis específicos de curva, nível da vértebra apical e preferência do paciente. Os principais:

Boston · TLSO
Colete Boston

O mais prescrito no mundo. Rígido, molda o tronco de tórax ao sacro. Indicado para curvas lombares e toracolombares. Confeccionado sob medida por termoplástico.

Milwaukee · CTLSO
Colete Milwaukee

Inclui apoio cervical além do tronco. Indicado para curvas com ápice acima de T8. Menos usado hoje pela visibilidade — substituído por versões mais discretas.

Cheneau · Rigo-Cheneau
Colete Cheneau

Padrão europeu, baseado em moldagem 3D e princípio de correção ativa. Promove correção com zonas de pressão e expansão alternadas. Muito usado em centros especializados europeus.

SpineCor · Flexível
Colete SpineCor

Alternativa flexível não rígida. Evidência mais limitada que o TLSO rígido. Pode ser indicado para casos selecionados como complemento aos exercícios.

iv.

Adesão ao colete

O colete só funciona se for usado. Este é o maior determinante de resultado — mais que o tipo de colete escolhido04.

As diretrizes SOSORT 2024 recomendam 18 a 23 horas por dia, com o tempo sendo proporcional à severidade da curva, idade do paciente e fase do tratamento01.

Estudos com sensores eletrônicos de uso mostram que a adesão declarada pelos pacientes é consistentemente maior que a real. Pacientes que usam o colete conforme prescrito têm resultados significativamente melhores — com menos progressão e maiores chances de melhora real do ângulo05.

O desmame é gradual: a SOSORT recomenda redução progressiva do tempo de uso a partir do Risser 3, com manutenção de exercícios de estabilização para adaptar o sistema postural01.

Impacto psicológico: O uso de colete — especialmente em adolescentes — tem impacto relevante na autoimagem e qualidade de vida. Suporte psicológico e grupos de apoio são parte do tratamento completo.

v.

Exercícios específicos (PSSE)

Os PSSE — Physiotherapeutic Scoliosis-Specific Exercises — são exercícios de fisioterapia desenvolvidos especificamente para escoliose. Diferem fundamentalmente de exercícios genéricos de fortalecimento de core06.

O princípio central é a auto-correção ativa: o paciente aprende a perceber e corrigir sua própria postura nos três planos do espaço, e depois integrar essa correção em atividades cotidianas.

Schroth
O método mais estudado. Criado por Katharina Schroth na Alemanha nos anos 1920. Baseia-se em respiração rotacional, auto-crescimento e desrotação ativa da curva. Realizado em sessões individuais e em grupo.
SEAS
Scientific Exercise Approach to Scoliosis — método italiano do ISICO. Foco em auto-correção integrada às atividades diárias. Baseado em evidências publicadas em periódicos indexados.
BSPTS
Barcelona Scoliosis Physical Therapy School — derivação do Schroth com adaptações espanholas. Muito usado na Europa e América Latina.
DoboMed
Método polonês baseado em mobilização da região torácica e exercícios em três dimensões. Indicado para escolioses torácicas.
Side-Shift
Método britânico baseado no deslocamento lateral do tronco. Mais simples de executar, útil para pacientes adultos e manutenção.
vi.

O que a evidência diz

Durante décadas, o debate sobre a eficácia do colete foi intenso. Um ensaio clínico randomizado publicado no NEJM em 2013 — o BrAIST trial — trouxe respostas definitivas07:

Evidência científica · Ensaio BrAIST 2013

O colete funciona.

O estudo BrAIST (Bracing in Adolescent Idiopathic Scoliosis Trial), publicado no New England Journal of Medicine, demonstrou que o uso de colete reduz significativamente a progressão para níveis cirúrgicos em adolescentes com escoliose moderada.

Resultados: 72% de sucesso no grupo com colete vs. 48% no grupo de observação. A análise de eficácia (por tempo de uso real medido por sensor) mostrou relação dose-resposta — quanto mais horas de uso, maior a taxa de sucesso.

72%
Sucesso com colete
48%
Sucesso com observação
84%
Sucesso com uso ≥13h/dia

Em relação aos exercícios, uma revisão Cochrane de 2015 e estudos subsequentes mostram evidência moderada para a eficácia dos PSSE — especialmente quando combinados com colete08. O estudo PMC3675407 encontrou 84,9% de não-progressão com protocolo SOSORT completo (colete + exercícios).

A mensagem clara da evidência atual: tratamento conservador funciona, e o componente mais crítico é a adesão — não o tipo de colete ou o método de exercício específico09.

Referências

10 fontes desta página

Toda afirmação médica ou numérica é rastreável a uma fonte primária.

[01]
Diretrizes SOSORT 2024 — tratamento conservador
SOSORT · Medscape
Ver →
[02]
Observação ativa — frequência de raio-X por Risser
SOSORT · SRS
Ver →
[03]
Eficácia do colete em pacientes em crescimento
PMC4132192 · SOSORT
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[04]
Adesão como determinante principal do resultado
PMC3675407 · SOSORT
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[05]
Sensores de uso e compliance em bracing
SOSORT 2024 · PMC3224944
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[06]
PSSE — exercícios específicos vs. genéricos
SOSORT · PMC10548475
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[07]
BrAIST Trial — eficácia do bracing (72% vs 48%)
NEJM 2013 · PubMed PMID 24047455
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[08]
Revisão Cochrane — bracing em AIS
Cochrane · PMC2651850
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[09]
84,9% não-progressão com protocolo SOSORT completo
PMC3675407
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[10]
20 anos de inovações em tratamento conservador
PMC10548475
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